Às Mãos

Wambert Gomes Di Lorenzo

 

Às mãos que        me acolheram,

                    acalentaram,

                             embalaram,

                             banharam,

                             acariciaram,

                             curaram,

                             corrigiram,

                             carregaram,

                             as lágrimas enxugaram,

                             elevaram,

                             educaram,

                             um dia, acenaram,

                             (postas) por mim pediram,

                             e sempre me esperaram.

 

(luvas para minha mãe)

 

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Porto Alegre, dia das mães  de 1999

Raboni!

Wambert Di Lorenzo

(Publicado no Domingo de Páscoa de 2000,

em Zero Hora)

        Era uma fresca madrugada, como frescas e secas são as manhãs de Israel. Madalena levantou-se cedo, o sol ainda se espreguiçava enquanto ela já se punha a caminhar. Levava consigo além de um frasco de óleo perfumando, dor imensa, angústia e desesperança, tão antigas e tão atuais. Os sentimentos faziam-na regar de lágrimas o caminho que a conduzia ao sepulcro, onde, por sobre o corpo do seu amado, derramaria o óleo que também levava.
        Tudo acabara. Os mais nobres ideais, jamais pregados em toda história da humanidade, agora jaziam, com seu autor, sobre e sob a pedra fria da sepultura. O gesto da mulher de Magdala soava como o último aplauso de um último espetáculo definitivamente terminado. E, para seu maior desespero, como se não bastasse as atrocidades que, inocente, sofrera o homem, seu corpo havia sido roubado do sepulcro. A mulher chorava. Chorava incontinente e impotente, com choram os sem-comida, sem-amor, sem-esperança, os sem-Deus e todos os outros “sem”, excluídos que são e esmagados pelas iníquas estruturas de poder e pelo egoísmo humano, também tão antigos e tão novos.
        Chorava ainda, quando alguém que lhe parecia o jardineiro a indagava: “mulher, por que choras? Quem procuras?” Respondendo que supunha ter sido roubado o corpo, foi interrompida com uma suave, doce e terna, porém desapontada exclamação do seu próprio nome: “Maria!” Só então reconheceu a voz do interlocutor. Era Ele! A pedra que cobria o sepulcro rolara e o ressurrecto dele levantando saíra com Suas próprias pernas, dando-nos a lição de que os aguilhões da morte não mais teriam poder sobre o homem. Vencera a morte pela morte, para nos fazer participar de Sua abundante vida. Madalena assistia ao cumprimento de todas as Suas promessas. Via-O com seus próprios olhos.
        Era o primeiro dia da semana, a “primeira-feira” nomeada de domingo (dia do Senhor), onde Jesus, Deus com o Pai, acordava do Seu novo repouso sabático, após ter recriado o homem.
        Estupefata, Maria Madalena dissera apenas uma palavra: “Raboni!” (que no hebraico significa mestre). Ela o reconheceu apenas quando este pronunciou seu nome. Só ele sabia pronunciá-lo com tanta ternura e autoridade.
        O burburinho dos nossos tempos, comumente tapam os ouvidos da alma. Nesta sintonia nefasta, o ressurrecto é Aquele que tem o poder de se fazer perceber pela exclusividade e insistência do seu amor. Ele pronuncia nosso nome caro leitor, e apenas a recitação deste, é suficiente para preencher os mais profundos vazios existenciais.
        A grande verdade, grande diferencial e cerne da fé cristã é celebrado hoje: Jesus ressuscitou! Essa ressurreição não deve ficar apenas no plano da história e da teologia. Essencial é que Ele ressuscite e viva no coração do homem. Não de forma panteísta. A experiência cristã nos traz a possibilidade de um relacionamento pessoal com Deus. Não de alguém para uma “força superior” indefinida. Mas, de uma pessoa para outra pessoa, de um alguém para outro alguém. Só assim, como Maria de Magdala, seduzidos e rendidos poderemos também dizer:
- Raboni!

À Cruz

Wambert Di Lorenzo

Ó árvore,
tu és contraditória,
teu fruto causou pavor,
mas deu sabor à história.

Sabor de pão.
Maná que veio do céu,
de um Deus que se fez irmão,
do oculto rasgando o véu.

És contraditória,
árvore de morte e de vida,
ignóbil, mas gloriosa,
nefasta, porém bendita.

Lembras a árvore primeira,
onde pendia o maldito pão,
da morte era palmeira,
que matou a nós, no primeiro Adão.

Asperge-me com o orvalho teu,
suco escarlate do teu Fruto,
que quando o céu entrou em breu,
banhou o homem tornando-o justo.

Descanso à tua sombra,
comendo sob teus galhos,
e as primícias do teu tronco,
envolve-me com Seus ternos braços.

Loucura e sabedoria,
para os que se perdem, esquizofrenia,
mas, dos que se acham,
és árvore da alegria.

Maldito e louvável madeiro,
és trono sobre o qual o Rei,
sentou-se para escrever sua nova Lei,
do amor extremo e verdadeiro.

A Páscoa é uma loucura

 

Wambert Gomes Di Lorenzo

Mesmo no martírio encontramos um saldo de racionalidade, uma lógica de extremo amor à vida ou de desprezo a ela. Sim, ainda que benigna ou perversa há, até no suplício voluntário, um resto de racionalidade. Mas, a Páscoa é uma loucura, a cruz é demais para minha cabeça contemporânea. Difícil para minha razão especulativa entender o amor de um pai que entrega seu único filho para morrer resignadamente no meu lugar, como um cordeiro. Ao absurdo da Páscoa soma-se um desatino: a revelação de um Deus humilde. Que disparate! Um Deus humilde. Divindade e humildade é uma contradição insolúvel para minha mente. Tem mais! Como conciliar meu relativismo, o deus que construí a minha própria imagem e semelhança, com a idéia de um Deus Vivo e Absoluto.

 À loucura soma-se o escândalo. As cenas da cruz e de um cadáver esmigalhado sepultado às pressas são horrendas. Como aceitar um Deus ter um fim tão trágico, uma derrota tão infame?

 É falando para homens com dramas como os meus que Paulo inicia sua carta aos Coríntios: ”A linguagem da cruz é loucura para o mundo, mas sabedoria para Deus” (I, 1, 18). Ela ensina que o fim era apenas aparente, que Páscoa (pesach) significa “passagem”, que era necessário o Filho de Deus (Deus com Deus) padecer para humilhar, desmoralizar a morte, vencê-la por ela mesma. Graças à Páscoa de Cristo todos nós podemos ter a nossa e assim também rir da morte, fazer pouco caso dela e caçoar como Paulo: “Morte, onde está tua vitória? Morte, onde está teu aguilhão?” (I Cor. 15, 55).

 Celebrações como a Páscoa são espelhos turvos, onde o Ocidente se olha e por vezes não se enxerga mais. Quando parte do mundo celebra a maior de todas as festas cristãs, ouve-se do fundo deste espelho uma voz que lhe convida a olhar seu reflexo e descobrir a si próprio antes que até mesmo essa túrbida imagem do seu eu seja definitivamente embaçada pelo relativismo que, depois de tantas ameaças, vem desferindo-lhe golpes mortais.

 Entretanto, há os que ignoram a loucura e o escândalo e descobrem na cruz a sabedoria que jaz agora no Oriente Médio e na África sob as cinzas da nossa vergonha, mas que ensina o amor verdadeiro, do qual resultam a tolerância, o perdão e a reconciliação.

 Aquele que fez a passagem, abrindo o caminho para nós, ensinou que a fé, a esperança e o amor são as três vias que levam à felicidade. São as três virtudes que conduzem a nossa passagem, àquele momento de travessia da vida efêmera para a absoluta, ela se dará sobre a ponte da cruz, daquele maldito mas louvável madeiro, que também é o trono sobre o qual o Rei sentou-se para escrever sua nova Lei, do amor extremo e verdadeiro.

 

OS SAPATINHOS DE AUSCHWITZ

“Só o trabalho liberta”! Lá estava eu sob a frase cínica que recebeu Anne Frank, Maximiliano Maria Kolbe e Edith Stein no caminho da imortalidade. Lá vi cobertores tecidos com cabelos, pilhas de roupas, de malas e a mais assombrosa peça: uma pantalha feita de pele humana.  Em cada passo, uma pseudo dispneia me sufocava como se pudesse colocar dentro de mim uma centelha da dor de milhões. Mas, foi na visão de uma vitrine que desmoronei. Nela, milhares de sapatinhos empilhados. Colegas europeus me amparavam sem entender o por quê de despejar minha latinidade em pranto. Pois, meu filho nascera um ano antes, um bebê lindo cujo pezinho caberia em centenas de sapatinhos daqueles.

Dentre as milhões de vítimas da Shoá, mais de um milhão foram exterminadas em Auschwitz-Birkenau. Relatos falam de mais de seis mil por dia. É um número tão absurdo que parece imaginário. Mas, não! Algum gênio da mecânica criou fornos que se retroalimentavam com a parca gordura dos corpos e câmaras de gás que podiam exterminar até duas mil pessoas por vez. Essa eficiência administrativa, revelada no julgamento de Eichmann, levou Hanna Arendt a cunhar a expressão “banalidade do mal” e demonstrar uma peculiaridade comum aos regimes totalitários: a habilidade de transformar carnificina em simples procedimento burocrático.

O resvalo ético para o genocídio é a “coisificação” do outro, um déficit de reconhecimento que impede de enxergar a natureza comum e para o qual concorria o tratamento degradante cujo efeito impedia qualquer identificação entre o carrasco e a vítima que, andes da vida, perdia sua condição humana.

Hoje, nos 70 anos da libertação de Auschwitz, comemoro minha vida lembrando da morte superlativa e dos milhões de sapatinhos vazios ainda mundo afora.  Lembro também da mais importante lição: a shoá foi perpetrada por homens comuns e não por monstros. Como ensina Viktor Frankl (sobrevivente de Auschwitz), o ser humano “é o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também o ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios”.

 

 

 


* Advogado e professor universitário